segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Texto do mês de agosto na minha coluna no jornal Informativo, de Jequitinhonha


Segundo o historiador Luís Santiago, os dois primeiros jornais publicados no Vale do Jequitinhonha foram “A Estrela Polar”, criado em 1902, e “Pão de Santo Antônio” (que teve o nome mudado para Voz de Diamantina), criado em 1906, em Diamantina. Ambos periódicos eram vinculados a entidades católicas. Infelizmente, as pesquisas sobre o Vale do Jequitinhonha se restringem a repetitivos e cansativos trabalhos acerca da oralidade, do artesanato e de algumas patologias apresentadas pela população da nossa terra, o que dificulta qualquer pretensão de análise precisa sobre a história da região. Provavelmente, devem existir jornais anteriores aos mencionados por mim, sobretudo, no Serro, município que, em 1700, deu origem a todo o Vale do Jequitinhonha. Porém, os pesquisadores que estudam o Vale continuam a se comportar muito mais como turistas, admiradores do fortuito e do exótico, esquecendo-se de que o compromisso do pesquisador é com o trabalho acadêmico de qualidade e não com um longo e prazeroso período de férias.
No Baixo Jequitinhonha, a criação dos jornais é quase paralela a Revolução de 30. Em entrevista ao Jornal Geraes, de setembro de 1978, o escritor José de Cortês Duarte afirma que o primeiro jornal surgido nessa região foi “O Indígena”, de Jequitinhonha, seguido de “O Vigia”, de Almenara, e de “A Voz do Norte”, de Pedra Azul. Não temos informações sobre os fundadores de “O Indígena” e tampouco sobre a data de sua fundação. Possivelmente, o jornal deve ser anterior ao ano de 1930. O jornal “O Vigia” (atualmente, O Vigia do Vale) fora fundado em junho de 1930 por Olindo Miranda de Souza. Na época, atuaram como colaboradores o próprio José de Cortês, o padre Manoel do Padro e o médico Ponciano. Geralmente, os jornais publicados na década de trinta apreciavam a retórica barroca ou o tom panfletário e o discurso cívico e de massas. No entanto, “O Vigia” se diferencia dos jornais dessa década por trabalhar, politicamente, para a emancipação de Almenara, que ainda era distrito de Jequitinhonha. A emancipação foi conseguida somente em doze de janeiro de 1938 e “O Vigia” teve fundamental importância para que esta ocorresse.
Na cidade de Pedra Azul, antes da publicação do periódico “A Voz do Norte”, foi criado “O Sertão”, em fevereiro de 1931, pelo professor Josias Moreira. Esse jornal foi mantido pela Prefeitura, no governo de Antero Ruas. Em junho de 1936, também na cidade de Pedra azul, fora criado o jornal “A Voz do Norte” por Sátiro de Almeida. Outros periódicos relevantes para o início do jornalismo no Vale foram “O Arassuahy”, fundado em 1938, na cidade de Araçuaí, e “O Reivindicador”, fundado em outubro de 1930, em Salinas, por Clemente Medrado. Apesar de todos os jornais mencionados terem contribuído significativamente para os primeiros passos do jornalismo no Vale, creio que o periódico que, sem dúvida, consolidou o jornalismo na nossa região foi o jornal Geraes. Ele circulou, inconstantemente, entre os anos de 1978 e 1985 e teve vinte e três edições, sendo a última em julho de 1985. A redação desse jornal funcionava na rua Jaime Gomes, 155, no bairro Floresta, em Belo Horizonte e sua impressão era realizada também na capital mineira pela gráfica Ratanguera. O Geraes circulava em todo o Vale do Jequitinhonha e seus objetivos eram retratar a realidade do Vale e discutir os problemas desta região. Além destes objetivos bem traçados no editorial da primeira edição, de março de 1978, o Geraes ajudou a fundar diversas entidades culturais, tais como CCVJ (Centro Cultural do Vale do Jequitinhonha), o MCPJ (Movimento de Cultura Popular do Jequitinhonha), o CCAVJ (Centro Cultural e Artístico do Vale do Jequitinhonha, fusão do CCVJ com o MCPJ), e a criar, a organizar e a divulgar um dos maiores festivais de cultura brasileiros, o FESTIVALE. Porém, julgo que a maior contribuição do Geraes foi para a literatura do Vale, uma vez que divulgou em suas páginas poesias e contos de autores valejequitinhonhenses e promoveu o I concurso de Poesias e Contos da região, em 1978, divulgando as poesias premiadas neste concurso na edição de número cinco, de janeiro/fevereiro de 1979. Outra imprescindível contribuição do Geraes para a literatura e, especificamente, para a poesia do Vale foi o apoio que deu aos livros Jequitinhonha “Antologia Poética” e “Jequitinhonha Antologia Poética II”, publicados, respectivamente, em 1982 e 1985, e ao livro “Arreunião”, coletânea com 66 poetas do Vale, publicada em 1984.
Contemporaneamente, destaco a fundação do jornal Informativo, de Jequitinhonha, em 25 de agosto de 2001 por Alessandro Xavier e Dirceu Pereira.  Este jornal, um dos mais jovens do Vale do Jequitinhonha, completará dez anos este mês e creio que temos muito o que comemorar. A cidade de Jequitinhonha, que teve o primeiro jornal do Baixo Jequitinhonha, ficou durante décadas sem nenhum veículo de comunicação impresso. O jornal Informativo veio para preencher essa lacuna e, hoje, consegue levar reportagens, opinião e informação não só aos Jequitinhonhenses naturais da cidade de Jequitinhonha, mas também a grande parte da população do Baixo Jequitinhonha, respeitando os princípios do conhecimento, da disseminação da aprendizagem em massa e da notícia ensinados pelo alemão Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutenberg, “inventor” da imprensa, no século XV. Claro que o Informativo ainda precisa melhorar em alguns pontos e há a consciência disto. Mas, há quase uma década este jornal era apenas um sonho. Agora, ele é uma realidade consolidada. Assim, como colaborador orgulhoso e, antes de tudo, como amigo dos inúmeros leitores deste jornal, sei que o trabalho e a busca pela qualidade nunca cessarão. Por isso, gostaria de agradecer aos leitores pelo carinho, pelo respeito, pelas conversas e pelas opiniões tão gentis sobre a minha coluna. Gostaria de agradecer também ao Alessandro pela oportunidade que me dá com este espaço e pela liberdade para escrever e “escrever-me”. Isso, definitivamente, não tem preço. Acredito que tudo isso junto fazem do jornal Informativo o algo novo e diferenciado no jornalismo do Vale. E tenho a certeza de que esse jornal, com a ajuda de todos vocês, conseguiu entrar para a história do jornalismo do Vale do Jequitinhonha e fará parte, daqui para frente, de qualquer trabalho que ouse a estudar o jornalismo no Vale.   

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Texto deste mês de julho em minha coluna no jornal Informativo, de Jequitinhonha.

                                                                    Visita ao Vampiro de São Pedro


Cheguei ao distrito de São Pedro do Jequitinhonha depois de quase dez anos sem visitar o lugar. Acompanhava as mudanças somente pelas cartas que o Vampiro me enviava, contando as novidades. A aposentadoria dos velhos escaleres ainda provocava uma estranheza vazia e doída. Lembranças da travessia vagarosa, de mãos no rio, pareciam aquietadas. Só o vento tinha jeito de infância. O lajedo ainda possuía o mesmo brilho, mas o motor do barco não dava muito tempo para contemplações. Meninos jogando tarrafa, em busca de peixe ou de estórias; Casais namorando dentro d’água, ensinando-nos a expressão do amor molhado; Lavadeiras de sorriso fácil e de vestidos coloridos; A algazarra do mercado; Os campeonatos de argolinha; E a bola rolando frenética no campo de futebol pertenciam ao passado. Não sei se meu ou do Vampiro. Absorto com tudo aquilo, parei na rua Tamburi. A partir dali devia seguir as instruções do mapa feito pelo Vampiro. Atravessei o córrego Tamburi e entrei em uma trilha descuidada e triste, repleta de tanajuras. No final da trilha havia um barranco que eu deveria subir. A casa do Vampiro ficava lá em cima. Ele estava na varanda cinza, sentado com seu chapéu de palha, sua bengala azul ao lado e sua capa preta inseparável. Perto dele ainda estavam a vasilha de doce de leite e o abandonado “Berro”, enfeites naturais. Na varanda só havia uma cadeira desbotada de onde o Vampiro observava as suas terras enfezadas. E na porta de entrada, dois imensos quadros davam as saudações. Um com a imagem do Bicho da Fortaleza, vários escritos indecifráveis e uma palavrinha minúscula e visível, a única: amigo. E outro com a fotografia de Ângela Ro Ro e uma tarja branca no pé do quadro com a letra da música “Simples Carinho”, a preferida do Vampiro. Dentro da casa tudo estava adormecido. A mesa, onde ficavam a antiga máquina de escrever, a rapadura (o Vampiro não gostava de sangue, mas de rapadura) e o requeijão, preferencialmente, escuro; A cadeira, que servia como guarda-roupa e como comodidade para visitas, praticamente escassas; Um aquário cheio de lodo e de lambaris do Jequitinhonha; Uma cama constantemente desarrumada; Uma coleção do jornal Geraes, que circulou no Vale de 1978 a 1985; E uma carta que recebera de Francelino Pereira, ex-prefeito de Jequitinhonha. A carta era o xodó do Vampiro. Fora uma resposta às reivindicações e aos abaixo-assinados que os moradores de São Pedro fizeram no início da década de oitenta contra o governo de Francelino. “Naquela época, o distrito de São Pedro sofria com o abandono, com a destruição que a enchente de 79 causou e com a violência policial do cabo Antônio e do capitão Getúlio Valadares. Após o misterioso assassinato do cabo Antônio, a violência se intensificou. Pegaram o meu amigo, o balseiro Juscelino, e Lero Hora Errada para Cristo. Aí tivemos que reagir”.
Essa era uma das raras vezes que a fala do Vampiro deixava o tom amargo e monossilábico. Por isso, mesmo tento escutado esse caso por diversas vezes, sempre ficava atento, procurando um novo acréscimo de personagens ou palavras. “São Pedro lembrava a França de 1848. Francelino teve que nos atender. E como bom político que foi, mandou-me esta cordial carta que guardo com respeito.” O Vampiro alisava a carta, mas, na verdade, queria alisar o tempo. Olhou pela janela. “Sabe aquele Tamarindeiro? Brincava lá na minha infância. Ficava horas e horas sentado em suas galhas, esperando os canoeiros descerem o rio, cantando beira-mar.” O Vampiro se calara. Percebi que era hora de partir. Despedi-me dele com a sensação de que nunca mais o veria. Não existia espaço para o Vampiro no São Pedro moderno. Tudo estava diferente. Naquele São Pedro a figura do Vampiro andava desapercebida. O que restava era a poeira da rua. Só a poeira da rua continuava a mesma, soprando as lembranças daquele ser estranho que percorria os dias de São Pedro com suas botas furadas, suas musiquinhas de cordel e o seu desejo silencioso de um dia voltar a fazer parte daquele lugar.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Texto deste mês de junho em minha coluna no jornal Informativo, de Jequitinhonha.

                                                                    O Voo da Borboleta


As cortinas do céu se abriam e a lua se desocultava em preces sentidas. Ele resolvera sair de casa. Tinha o estranho hábito de visitar a praça da Matriz de São Miguel todas as noites após o último badalar do sino. As ruas ainda estavam molhadas de chuva. Mesmo assim, sentou-se no banco encharcado que julgava ser seu. Deitou-se lá despensando a vida. Desquerendo o tempo. Olhava-se em absoluto reflexo. Refletia-se na brisa que soprava indormente do Jequitinhonha. A sensação era a de que ficava. Fazia parte dali. Enfiou a mão vazia no bolso e retirou o papel amarelado que o acompanhava em suas andanças. Era um trecho do poema “Amantes Submarinos”, de Murilo Mendes: “Esta noite eu te encontro nas solidões de coral/onde a força da vida nos trouxe pela mão”. Não sabia o porquê, mas estes versos alegravam-no. Enchiam-no de um mistério indecoroso. E amorteciam suas desconfianças. Orgulhava-se de suas desconfianças. Era nelas que morava. Era nelas que se perdia. Era nelas que convicções, crenças e bobagens metafísicas se interrogavam. Naquele dia na praça, nenhuma lembrança da infância saltou da memória. E nenhuma saudade gritou ou enrouqueceu de propósito. Ele queria só contemplar o espaço nulo e circular.
De repente, a noite, cheia de intervalos de escuridão, recolheu-se ao seu recinto indefeso. Uma borboleta vagalumiou o rosto Dele, trazendo uma luz lembrada. Ela riscara as sombras circunstanciais com seu brilho bonito e sentido. Ela acendera a chama da segunda realidade com suas asas huber-discursivas que barulhavam um som dolente e identificado. Suas asas cantantes e desencontradas entoavam a música “Não vá embora”, de Marisa Monte, deixando-o obnubilado. A Borboleta dançou o imprevisível, dando Nele uma espécie de abraço inteiro. Surpresa que sublimou a melação cotidiana, deixando a vida sem previsibilidade, fora dos clichês. Aquilo era novo e não familiar. Era estranho para Ele. O voo dançante da Borboleta adormeceu suas desconfianças no para sempre. Seu coração jurava indistintamente, incontrolavelmente. Um coração insone sob atos falhos de um “eu” que se duplicava em um “nós” desconhecido, convertendo-se em polissemias contantes repletas de expressão e destituídas de contudos. As flores da praça pareciam furtar a Borboleta para si, ciumentas. Mas, já não era mais possível furtá-la. Ele a roubara para o reino particular dos amores submarinos, subtraindo-a de um pulsar próprio de Borboleta, entre o fôlego e o suspiro.
Ele tentava respirar e encontrar uma explicação para aquilo. No entanto, tudo acontecia como se fosse a primeira vez, enchendo o momento de etecéteras. Certo e Incerto ao pé do ouvido. Trechinhos de excesso consecutivos e corpóreos. A Borboleta olhava para Ele com olhos pensantes que resumiam a literatura em um apenas de coincidência, sendo isto e aquilo, isto ou aquilo, nem isto e nem aquilo e tudo isto e tudo aquilo. Ele sentia-se queimando em sonho e mergulhou sem pavor na noite cardioproposital. A Borboleta pousou no banco da praça onde Ele estava. Ela era toda soma, desejo ambíguo e reticência. Ela e Ele pareciam contemplar-se integrados na distância, no perto. Foi quando a Borboleta voou e o levou consigo, parando a rotação do mundo em suas asas. Ele e Ela juntos no destino do infinito. Ela e Ele juntos na região abismal à espera que o irreal nunca se levante e que a aurora nunca chegue perto de suas imagens retornantes à água do Paraíso. Nesta noite, as flores da Matriz choraram o instante. E todos os dias, às dez da noite, uma estranha música ecoa de suas pétalas iluminadas, triste lamento pelo voo da Borboleta.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Texto deste mês de maio em minha coluna no jornal Informativo, de Jequitinhonha

Maria, a minha Mãe                                                                                               
Para Maria Lúcia Machado de Matos Silva, minha mãe.

Antes de todo gesto, lá estava você, gestando a véspera do amor, gestando-me criança, sempre criança. A sua criança que não cresceu e que você ainda ensina a dar os primeiros passos, segurando na mão para que eu não caia. Mãe é colo. Aprendi desde cedo. Um colo quentinho que põe a pirraça do pensamento e as dores da vida, mesmo dengosas e febris, para os sótãos do universo. Mãe une os versos. Mãe é poesia. Poesia e solução. Poesia e dissolução. Mãe é aliteração no nome. Mãe, Maria. Maria, Mãe. As Marias até que podem ser várias. Muitas. Mas, a minha Maria é Única, Plural, residente no Verso e no Verbo. A minha Maria senta na porta da rua e colore as estrelas com a cor rútila da admiração. A cor que só ela sabe usar. A cor que ela sabe de cor e salteado. Usa e abusa. Usa e abusa tanto que o seu tempo é o durante. E nesse durante, uso um verso do poeta José Machado de Mattos para defini-la: “Mãe é ‘Deus que te ajude’ olhando pro céu”. E mais que Deus te Ajude. Aumento a métrica desse verso Mãe. Mãe é vai com Deus. Sem se importar com a crença ou a descrença do filho. E sem se importar se Deus, indo com o filho, deixará de acompanhá-la. A proteção de Mãe não possui religião, só espiritualidade. Uma espiritualidade que vem de dentro, que vem do ventre e que anuncia, como o anjo Gabriel, que Mãe é saudade. A saudade minha e sua, leitor. A saudade dela. Só as mães para unirem as saudades do mundo, transformando-as em abraço. Aquele abraço apertado que desfaz choro e depois nos espia pelas janelas. Aquele abraço apertado que nos segue, independente da distância que nos encontramos.
Mães são assim. Um sim sempre pronto, sempre disposto. Maria é assim. Professora aposentada que nunca aposentou a pedagogia e o saber. Ela sabe o onde. E pedagogiza os fatos.  Ela é música. Milton Nascimento e Fernando Brant fizeram uma canção que parece ser para ela: “Maria, Maria/ É um dom, uma certa magia/Uma força que nos alerta”. “Maria, Maria/É o som, é a cor, é o suor/ É a dose mais forte e lenta.” Maria é mesmo Mainha. Uma força, um dom, uma magia que, sendo som, cor e suor, busca a dose mais forte e lenta de indefinível, de indefini-la. Os passos dela parecem dança. A comida dela abre o apetite do sossego. A beleza dela fixa nas coisas um silêncio sem dúvida e que não duvido, é sonho. Ela. A minha Mãe. A minha Mãe que é um pouco sua. A sua Mãe que é um pouco minha, compartilhadas no compartimento das declarações. Todos nós nos comovemos. E nos declaramos neste dia das Mães. É preciso nos declarar e nos comover. Não porque o capitalismo inventou uma data para saldar suas dívidas. Não! Devemos nos declarar e nos comover porque esquecemos de nos lembrar das cartinhas que escrevíamos quando éramos crianças. Nas cartinhas, repletas de sinceridade e sentimento, bordávamos o nome Dela e escrevíamos um “Eu te Amo” alegre e colorido. Foi nessas cartinhas que descobri algo que não me esquecerei. Foi lá que descobri com a inocência da criança que descobre que Mãe é Amor! 

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Texto de abril na minha coluna do jornal Informativo, de Jequitinhonha

                                                             Sinônimos

Falar do show de Zé Ramalho em Jequitinhonha se tornou tarefa fácil, de uma banalidade indecorosa. Não, não porque extrapolam aqui nesta coluna narcisismos exagerados. Não é isso. É mais que isso. É nada disso e mais que isso. E digo o porquê. Estamos todos, eu, você e os tantos e tantos privilegiados que assistiram ao show naquela praça com sentimentos repletos de cumplicidades, enternecimentos e camaradagem. De tal forma que eu poderia simplesmente, de uma hora para outra, começar a chamar um dos maiores nomes da Música Popular Brasileira de Zezinho. Fomos pegos pela intimidade. É como se Zé Ramalho fosse um de nós, jequitinhonhenses. E ainda é como se ele pertencesse por uma noite a este lúdico espaço citadino. Sabiamente, um conterrâneo nosso, exímio neologista e cruzeirense roxo, quer dizer, azul, o Cunha Laça-Verso, ou, Cunhinha, diria que Zezinho possuiu um quê de cibernética musical. E diria também que Zezinho é um Rouxinol solitário que nos faz sentir acompanhados quando canta. Acompanhados de nós mesmo e do outro. Ou outra. Ressalta-se, então, que a comparação aqui é natural, próxima do método ideogrâmico de Ezra Pound. O jequitinhonhense Cunhinha possui o que Roland Barthes chama de imaginário da linguagem. O saber das palavras. A palavra usada de maneira eloquente, maliciosamente adocicada e repleta de unidades singulares e mônadas mágicas. A fala não só como instrumento ou expressão do pensamento, mas também como transliteração, como linguagem de medida lógica, afastando o pragmatismo ,e, espontaneamente, fazendo-nos sentir em casa.
O que Cunhinha faz tão bem com as palavras, Zezinho fez com a música. Sentimo-nos à vontade. Sentimo-nos tão próximos e tão em casa a ponto de imaginarmos o Zé Ramalho como um jequitinhonhense nato. Quem não se emocionou ao ouvi-lo dizer Je-qui-ti-nho-nha, cheio de sotaque e de idiossincrasia? Quem não se emocionou com o show que começou com a música “O que é, o que é”, de Gonzaguinha, e se encerrou com “Sinônimos”? Duvido que alguém tenha saído com o coração sem sangrar. Duvido que alguém não tenha escutado os mistérios da meia-noite. Duvido que alguém não tenha enxergado a neblina turva e brilhante vinda daquele palco e daquelas músicas. Duvido. Dessa forma, o show de Zé Ramalho, além de produzir um encantamento especial; além de entrar para história como a festa de maior público que o Vale do Jequitinhonha já viu; além de comprovar, mais uma vez, a capacidade administrativa do prefeito Roberto (um político do tamanho da importância histórica de Jequitinhonha); além disso tudo, sepulta também afirmações de que o jequitinhonhense, e, sobretudo, os jequitinhonhenses mais jovens só gostam de axé, arrocha ou coisas do gênero. Tá aí uma falácia e das hiperbólicas. No show de Zezinho, nosso chegado, acompanhamos um público heterogêneo, composto, em grande parte, por jovens, que não parou(raram) de cantar por um só instante. Aquilo modificou o olhar. Aquilo impressionou. E ficou. E permaneceu. E permanecerá na história. E nas lembranças da gente. Mesmo que o meu ou o seu olhar não estivesse inteiramente no palco. Mesmo que não olhássemos a multidão a todo instante. Estávamos ali naquela noite. Permanecíamos. Permanecíamos e permaneceremos nas lembranças daquela noite. A noite em que a linguagem se encontrou com a música. E que a música disse algo bem perto deste trecho de “Modificando o olhar”, de Zezinho: “ Ainda me lembro daquele desejo/ do tipo que arde no centro do peito/É como se fosse a única fonte/Daquelas que fazem o rio no leito”.








"HOMENAGEM AO BOTOCUDO KUÊK E AO PRÍNCIPE MAXIMILIANO - ENCONTRO INDÍGENA DE JEQUITINHONHA"

DIAS 13/14 E 15 DE MAIO DE 2011

REALIZAÇÃO: PREFEITURA MUNICIPAL DE JEQUITINHONHA/ ASSESSORIA ESPECIAL DO BICENTENÁRIO  - ABi



PARTICIPAÇÃO: PROGRAMA DE CONSERVAÇÃO DA HERANÇA ALEMÃ NO EXTERIOR/CONSULADO GERAL DA ALEMANHA NO 
RIO DE JANEIRO
BIBLIOTECA BRASILIANA DA ROBERT BOSCH GmbH - STUTTGART

Contato:   Solange Pereira                                                                                                             
abi   Assessoria Extraordinária do Bicentenário Prefeitura Municipal de Jequitinhonha
                                   Rua Papa Paulo I, 17 CEP 39960-000 tel. 33 3741 1543   bicentenario.jequi@bol.com.br
  htpp//curtirobi.webnod.pt

Prefeitura Municipal de Jequitinhonha            
PROGRAMA  
13/05 – Sexta-feira
18:00/19 hs - Recepção  dos convidados. Local:  Câmara Municipal                                                                              19:30 hs  -  Cerimônia de entrega da urna funerária pelo Cônsul-Geral à Guarda de Honra do TG “Leão do Vale, ”, no plenário da Câmara Municipal  onde ficará exposta à visitação pública todo o dia de sábado, das 8:30  às 19 hs.
14/05 – Sábado
Local: Auditório do Paço Municipal
08:00 hs- Credenciamento.                                                                                                        08:30 hs – Conferência pela Dra.Christina ROSTWOROWSKI  da Costa: “ O príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied e sua viagem ao Brasil (1815-1817) – o Borun Kuêk”,  10:30hs – Debates                                                                                                                                   12:00 hs– Almoço                                                                                                                     14:00 hs - Conferência pela Pedagoga Geralda Chaves Soares: “Na Trilha Guerreira dos Boruns”                                                                                                                                                      16:00hs – Debates                                                                                                                                               18 hs – Encerramento                                                                                                                     20 hs – Cantos e danças indígenas, confraternização entre as nações indígenas e o povo de Jequitinhonha –  Banda de Forró Maxakali. Local: Pça. de Eventos
15/05 Domingo Local: em frente à orla, ao lado do Hotel Bela Vista
8:30 hs - Cerimônia de transferência dos restos mortais do Borun Kuêk das mãos do representante da Alemanha ao Prefeito –Transferência dos restos mortais de Kuêk das mãos do Prefeito para o líder da nação Krenak. Acompanhamento da Guarda de Honra do TG “Leão do Vale”.
Descerramento das placas comemorativas do evento e das placas da Alameda Borun Kuêk e do Mirante  Príncipe Maximiliano.  
Encerramento - Concerto da Banda de Música da PM de Teófilo Otoni.





domingo, 10 de abril de 2011

Das antigas: Pertencente ao livro Nós em Sentido Dágua

Ressaca Inicial

A vida
é
um desespero misterioso
em que os pensamentos desfilam
na tentativa
de encontrar
as loucas pernas do destino.